António Borges
Full Member
 
Joelho no chão 0
Offline
Mensagens: 78
|
 |
« em: 22 de Fevereiro de 2010, 00:55:29 » |
|
Em 1973, logo na primeira parte do ano, havia ficado muito triste e desapontado com o que havia acontecido com a minha Aermachi Harley-Davidson Ala Verde (2 e 1/2), a minha falência perante a resolução do assunto junto com os obstáculos interpostos pela família desanimaram-me muito, mais propriamente irritaram-me. Rapidamente optei por casar quanto antes e fazer a minha vida – sabia lá o que estava a fazer… a minha namorada nem sequer era adepta de motos.
Não deixei de estar num meio ambiente onde convivíamos com gosto, em St. Amaro junto ao snack-bar “O Furo” (ainda existe mas não tem nada a ver, senão o local alargado e a origem do nome, vindo do facto de os donos terem tido um furo numa roda da lata onde iam para assinar o contrato de compra). Eu já preparava o meu casamento, o que me ocupava muitos serões e fins de semana, mas ainda ia havendo tempo para estar com uma malta bem gira e diversificada que acabava por juntar ali umas tantas motas, a maior parte 50 cc., mais algumas 125 cc. e 250 cc..
Era ainda o tempo das Zundapp, das Sasch V5 e Hércules Prior, das Push, das novas Honda e Yamaha 50, Honda 250 e Yamaha 180. E depois 750 e 650 respectivamente. Além dos adeptos do automobilismo, com modestos carros como Mini 850, Cooper, Hillman, Citroen Diane, etc., a candidatarem-se aos campeonatos de Promoção e Iniciados que justificavam deslocações a “fora de portas”.
Continuei assim a andar à pendura, carros e motas, até porque o meu maior amigo de adolescência, aquele com quem tinha convívio diário, cúmplice, familiar, o saudoso LFC que me tinha estragado a moto, era também um desses “campeões” que se batia em ralis e rampas com o seu Morris Mini 1000 ultra transformado; eu, nas motos era felizmente preferido para pendura porque não tinha medos e sabia levar o corpo com quem conduzia de forma a até dar maior segurança ao curvar.
Além disso um desses companheiros e meu amigo dilecto tinha uma Yamaha 125 na qual me costumava dar boleia emprego/casa, e vice-versa. Era meu colega e tinha uma dose especial de magia. Era bastante cómico e fazia coisas inéditas, como convencer alguns pacóvios de que no tempo dos primeiros motores de arranque eléctrico em motos japonesas (a Heinkel já tinha nos anos 60) ele só com umas festas no farol punha a moto a trabalhar, ou era o primeiro gajo que vi a inventar a marcha atrás para motos – pegava a moto a recuar descendo a Rua Luís de Camões e fazia o número da condução em marcha à ré (vi o Humberto Ribeiro em Mafra a fazer algo parecido com uma Zundapp 50 cc.).
Este companheiro, Xeg, já referido na crónica anterior, enquanto meu colega de trabalho estava na mesma sujeição de horários, e nesse tempo era das 9 às 12 e das 14 às 17 e 30, e havia o tempo suficiente para ir almoçar a casa, comida de jeito, nos restaurantes era luxo, pelo que fazíamos o caminho acima/abaixo quatro vezes ao dia, e não era de admirar que conhecêssemos a estrada a palmo, pelo que fazer de Alcântara à Alameda D. Afonso Henriques em 6 minutos, era o normal, pelo meio de trânsito engarrafado!
O pior era quando a motita, como piano gasto que era, já empanava a meio do caminho, mas este amigo tinha ainda umas mãos especiais com o devido estojo de ferramentas que lhe permitia desmontar até à cabeça de motor, tudo em brasa, que eu não conseguia mexer mas para ele era fácil, e, por fim lá chegávamos a maior parte das vezes antes do quarto de hora de tolerância, e antes do relógio de ponto marcar a vermelho (com as mãos pretas, claro).
Mas não era só este companheiro que tinha a sua comicidade, se puxasse mais pela memória seriam páginas a descrever personagens. Vou limitar-me a alguns que me ocorreram agora, pedindo desculpa aos omitidos e desejando a todos o melhor da vida (ou paz aos idos).
O Fortinaine tinha uma Push 49 cc. (claro, daí a alcunha) com uns avanços no garfo tão baixos, tão baixos, que quem tivesse os braços curtos não chegava lá; o Esquisito tinha igualmente uma Push, mas esta com pedais, e costumava cair muitas vezes porque insistia em virar o guiador em vez de se inclinar; os irmãos Metralha andavam à pendura, como eu, também conhecido por Vidrinhos, e tinham como hobbie “recriar” as ementas à porta dos restaurantes (escritas com letras afixáveis em painéis) com pratos confeccionados à base de partes íntimas fritas ou grelhadas e outras receitas imaginativas; lembro ainda o Franjinhas, com um humor dos melhores, guitarrista e diferente assumido, quando uma senhora velhinha parou na rua para ver sem acreditar, de boca aberta, um homem de cabelo escorrido até aos ombros, ele voltou-se e disse - Feche a boca que anda aí um cagalhão com asas.
Mas nem tudo era para rir neste mundo em que vivi. Houve os choros, como pela morte do companheiro Marsalo, em acidente como pendura quando caíram em Alcântara e ficou decapitado nos rails de separação da linha de comboio debaixo do viaduto (já não existem), e outros.
Como entretanto casei em 1974 e fui viver para a Parede os contactos ficaram perdidos, foi uma mudança de vida, esperava o meu primeiro filho e só mantive relacionamento com os mais íntimos, é o normal destas situações e agora vejo que esse exagero me deitou a perder em relacionamentos e riqueza de vida. Era também o tempo do 25A/74, um efeito catártico capaz de mudar vidas.
Na minha relação com as motas continuei a ter sorte. Tinha amigos que me emprestavam as suas motos, pequenas mas ia andando nelas. Fiz mais quilómetros numa Mobillete 50 cc., com pedais e banco corrido para dois, que o seu próprio dono que só a usava para passear (tinha medo do trânsito de Lisboa) e eu usava-a todos os dias, ia e vinha nela Parede/Lisboa e vice-versa. Esta motoreta foi notável no seu desempenho, o dono foi com ela até ao Gerês e eu bati-a muito duramente na cidade e Marginal até à Parede, era só… o que ela dava… Num passeio ao Alentejo em que íamos um casal numa Vespa 125, outro casal numa Mobilette igual, eu mais a minha esposa na tal, todos com carga para acampar, aí ela avariou, de vez, e a solução foi metê-la no comboio mais próximo e voltar de camioneta. Os amigos prosseguiram, já estávamos para lá de Beja.
Comprei depois uma mini mota, tinha muitas dúvidas sobre ela mas era quase de borla. E meti-me numa despesa. Era uma Doris, uma mini moto produzida em Portugal com um motor Casal de 50 cc., um quadro pequenino, baixo, rodas de 12 “ (ou 14”?), um depósito comprido e estreito e uma pequena baquet para assento. Estava ainda costumizada à “Easy Rider”, com um volante altíssimo e um apoio para costas a toda a altura. Achava-a ridícula. Mas piada, piada, tinha um amigo desse grupo de St. Amaro, homem para mais de 120 Kgs. que quando andava nela a fazia desaparecer debaixo de si.
Esta motita teve um triste destino com saída a seguir. Comigo foi, logo que a comprei, fazer arranjos de mecânica e tirar o aspecto pseudo “Easy Rider”, o volante alto era incómodo e o encosto era inútil e até perigoso em caso de queda porque arrastaria junto com a moto o seu condutor. Só que continuavam os problemas, as dificuldades para pegar, as avarias, e quando chegou o mau tempo, depois de verificar que estava a levar tanto ou mais tempo na motita para ir e vir da Parede a Lisboa que de comboio, meti-a numa arrecadação no quintal onde o meu cão se encarregou de a castigar pelo mau porte: roeu-lhe os estofos e grande parte da instalação eléctrica. O giro é que como entretanto já estava a tirar a carta de condução o meu próprio instrutor ma comprou para restaurar e se deslocar localmente.
Mas antes de tirar a carta já tinha comprado moto. Como não penso candidatar-me a Presidente da República posso confessar estas coisas: já havia conduzido o meu ferrozinho HD sem carta, e já no piano do amigo Xeg havia antes arrancado uma vez em cavalinho pela rua acima até conseguir controlar a potência, e logo que comprei a mota nova montei-me nela como apetece a qualquer um.
Estávamos em 1977 e fiz um mau investimento. A Casal 125 (modelo de estrada) que comprei nova estava cheia de defeitos. Ao fim de poucas semanas tinha mais ruídos de chapa que de motor, a parte eléctrica tinha falhas, a caixa de velocidades tinha um ponto morto entre cada mudança. Rapidamente me fartei dela e vendi-a.
Na altura havia uma “instituição” em Lisboa que era o Stand Vidal. Nesse Stand compravam-se, vendiam-se, trocavam-se, motos com extrema facilidade, com prestações acessíveis a qualquer empregado (por 500 esc./mês já havia moto).
Como já lá tinha comprado a Casal fui lá trocá-la por uma MZ 250 cc., uma TS250/s, Deluxe, salvo erro, já hão estou certo da designação exacta. Era um modelo que tinha conta rotações e cromados a ladear o depósito, e que eu rodei e tratei com toda a dedicação para fazer o seu melhor serviço.
Tive o cuidado de a rodar com toda a paciência, a progredir lentamente, e assim conseguia que ela depois de rodada esgotasse facilmente o velocímetro que marcava até aos 140 kms./h.
Foi uma moto que surpreendeu outros, montados em motos maiores como Honda 360cb, Kawasaki 400, Triumph Bonneville, etc., pela sua rapidez de arranque (a 2 tempos e com mistura de óleo a 2%, note-se, sem aquecimentos em longas distâncias), e também pela sua maneabilidade.
E foi aí, nesses tempos em que eu arrancava “àbrir” da Praça de Espanha para descer a Av. Gulbenkian fazendo as duas curvas de Campolide a 120 Kms./h que o meu amigo da Triunph me disse - é pá, tu andas muito nos limites…
Mas pouco tempo depois não foi por isso que fui ao tapete. Foi porque uma automobilista a conduzir um táxi mudou de direcção sem me ver e o choque foi enorme. Aí houve, de facto, uma volta na minha vida. E mais contarei um dia.
Vosso (d)escritor de serviço hoje “V” acb
|